Uma história Meia Noite
A voz no auscultador
Guardei a primeira mensagem do Nuno porque ele se enganou no nome do ficheiro. Durante semanas, a voz dele ficou no meu computador dentro de uma pasta chamada «Silêncio definitivo».

Guardei a primeira mensagem do Nuno porque ele se enganou no nome do ficheiro. Durante semanas, a voz dele ficou no meu computador dentro de uma pasta chamada «Silêncio definitivo».
Não havia nada de definitivo no silêncio. A gravação continha uma cadeira a ranger, alguém a tossir e o Nuno a dizer que recomeçava quando eu estivesse pronta. Eu estava a duzentos quilómetros dali. Ele usara a frase para testar o microfone, sem saber que eu a ouviria mais vezes do que era necessário.
Tinha trinta e cinco anos e trabalhava na recuperação de arquivos sonoros. Nuno tinha trinta e oito e coordenava um projeto de memória de uma rádio local. A emissora fechara anos antes, deixando fitas, cassetes e caixas de papel onde ninguém conseguia distinguir contas de eletricidade de entrevistas importantes. Conhecemo-nos numa reunião por vídeo. Vi-lhe o rosto antes de conhecer a voz, mas foi a voz que ficou.
Comecei este caderno para anotar decisões de trabalho. O primeiro registo dizia que devíamos conservar os ruídos de fundo sempre que não impedissem a compreensão. O segundo lembrava que faltava autorização de um entrevistado para divulgar um excerto. O terceiro, escrito numa sexta-feira, dizia apenas que o Nuno se ria antes de acabar as frases e que eu começara a esperar por esse riso.
Não lhe contei isso. Enviava relatórios impecáveis, com tempos, formatos e dúvidas objetivas. Ele respondia com a mesma competência e acrescentava uma observação sobre a chuva, o café ou uma descoberta numa caixa. Aos poucos, os emails ganharam parágrafos que já não pertenciam ao projeto. Eu fingia considerá-los contexto. O caderno registava uma versão menos respeitável dessa análise.
Numa terça-feira, ouvimos juntos uma gravação de um programa de pedidos musicais. Uma mulher dedicava uma canção ao marido porque ele finalmente aprendera a fechar as gavetas. Nuno começou a rir. Eu pedi-lhe que parasse, porque estava a tentar perceber uma palavra. Ele pediu desculpa, mas o riso voltou quando ouvimos a resposta do locutor. Pela primeira vez desligámos a gravação e continuámos em chamada sem uma tarefa aberta.
Falámos durante quase uma hora. Descobri que ele fazia pão mal cozido com uma persistência admirável. Contei-lhe que eu tinha uma planta que sobrevivia apenas porque uma amiga me lembrava de a regar. Eram informações pequenas, incapazes de justificar a felicidade com que fechei o computador. Escrevi no caderno que a semana tinha melhorado. Não acrescentei porquê, numa tentativa inútil de conservar alguma discrição diante de mim própria.
O primeiro telefonema fora do horário aconteceu num domingo. Nuno enviou antes uma mensagem a perguntar se podia ligar. Estava a escolher equipamento para uma sala e queria a minha opinião. Respondi à pergunta técnica em cinco minutos. Depois falámos de um filme, de um livro e da dificuldade de cozinhar apenas para uma pessoa sem comer a mesma sopa durante dias. Quando desligámos, o céu já estava escuro.
Na página seguinte escrevi uma pergunta: «Estou a conhecer um homem ou a imaginar os intervalos entre as mensagens?» A distância permitia uma edição muito favorável. Nuno podia ser impaciente, desorganizado ou incapaz de ouvir alguém sem o telefone na mão. Eu podia estar a oferecer-lhe apenas as horas em que me sentia melhor. Precisava de perceber o que acontecia fora dos auscultadores.
Fui visitar o arquivo numa quinta-feira. A deslocação fazia parte do projeto e estava marcada havia meses. Nuno esperava-me à porta com duas caixas nos braços. Pediu que lhe abrisse a porta em vez de tentar cumprimentar-me sem largar nada. Foi uma apresentação excelente à sua vida real. Havia pó, trabalho acumulado e um casaco que alguém deixara numa cadeira desde o inverno anterior.
Passámos a manhã a inventariar fitas. Nuno perdia a fita adesiva, voltava atrás numa explicação e ficava irritado quando a impressora falhava. Também admitia quando não sabia uma resposta e perguntava antes de mexer nas minhas coisas. Ao almoço, eu já gostava dele de uma maneira menos confortável e mais concreta. O homem tinha defeitos observáveis. Continuava a querer ficar.
À tarde surgiu um problema com uma gravação. Nuno queria incluí-la na apresentação pública; eu achava que a autorização existente não abrangia aquele uso. Discordámos durante vinte minutos. Ele ficou calado, consultou os documentos e acabou por concordar em retirar o excerto até esclarecerem a situação. Mais tarde agradeceu-me a insistência. Registei esse episódio no caderno com mais cuidado do que o almoço.
Fomos jantar depois do trabalho. Nuno perguntou se eu tinha reparado que já não estávamos a falar de equipamentos. Respondi que reparara há várias semanas. Ele pareceu aliviado e um pouco ofendido por eu o ter deixado chegar sozinho à conclusão. Disse-lhe que também tinha dúvidas. Falámos delas sem transformar o jantar numa reunião de riscos.
Quando me acompanhou ao pequeno hotel onde ficava, parámos junto à entrada. Nuno perguntou se me podia beijar. Eu tirei-lhe da mão o saco com documentos e pousei-o no banco ao lado, porque estava farta de caixas e papéis entre nós. Disse que sim. A voz que conhecia tão bem ficou finalmente próxima o suficiente para deixar de depender de um aparelho.
O beijo foi demorado, interrompido por um sorriso que reconheci antes de abrir os olhos. Não lhe pedi que entrasse. Queria dormir, pensar e acordar com vontade de o ver outra vez. Disse-lhe isso, receando que parecesse uma recusa. Nuno respondeu que também queria o dia seguinte. Deixou-me à porta e mandou uma mensagem quando chegou a casa, sem exigir que eu continuasse acordada.
Na manhã seguinte tomámos pequeno-almoço juntos. Ele estava mal-humorado com uma noite curta e eu tinha uma dor de cabeça banal. Nenhum tentou fingir uma perfeição que o encontro não precisava. Trabalhámos até ao fim da tarde e combinámos uma visita sem projeto para o mês seguinte. Antes de partir, entreguei-lhe uma cópia de uma gravação de que gostava, devidamente autorizada, numa pen com uma etiqueta escrita à mão.
A visita aconteceu. Nuno veio a minha casa, cozinhou pão que voltou a ficar mal cozido e conheceu a planta sobrevivente. Passeámos, discutimos sobre um final de filme e escolhemos passar a noite juntos. Não escrevi essa noite no caderno. Há experiências que quero viver sem preparar um arquivo para as conservar.
Na estação, antes de regressar, ele perguntou se eu estava a conseguir trabalhar com tantas chamadas. A pergunta pareceu-me carinhosa e sensata. Tínhamos começado a roubar horas ao sono para não terminar conversas. Combinámos duas noites sem telefone durante a semana e descobrimos que esperar também podia fazer parte da proximidade. Na primeira dessas noites li cinquenta páginas de um livro que abandonara. Na segunda, ele foi jantar com amigos. Quando voltámos a falar, tínhamos mais coisas para contar e menos necessidade de usar a duração da chamada como medida do que sentíamos. Anotei o acordo, porque os cadernos também servem para lembrar decisões que vale a pena cumprir.
Hoje continuo a trabalhar com auscultadores. A pasta «Silêncio definitivo» ainda existe, embora tenha agora um nome técnico mais adequado. A primeira gravação está guardada por razões que já não finjo profissionais. No caderno, a última nota diz que devemos manter os ruídos de fundo. Às vezes são eles que provam que havia alguém do outro lado, a preparar-se para começar.


