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Uma história Meia Noite

Antes que o café arrefeça

Escrevi o nome de Óscar numa página do diário e risquei-o antes de acabar a frase. Não queria que um homem que conhecia havia quatro semanas ocupasse um caderno onde eu passara anos a fingir que não esperava ninguém.

Inês Azevedo7 min de leitura Sensual
Diário aberto e uma chávena de café sobre a mesa junto a uma janela.
Ao teu ritmo

Escrevi o nome de Óscar numa página do diário e risquei-o antes de acabar a frase. Não queria que um homem que conhecia havia quatro semanas ocupasse um caderno onde eu passara anos a fingir que não esperava ninguém.

Quarta-feira, de manhã.

Tenho quarenta anos. Trabalho nos serviços financeiros de uma empresa municipal e costumo ser a pessoa que pede documentos às outras antes de as despesas ficarem fechadas. No diário, faço quase o contrário. Escrevo conclusões sem guardar as provas.

Óscar tem quarenta e três. Gere uma banca de peixe no mercado e chega à pastelaria quando eu estou a sair. Encontrámo-nos durante meses sem falar, por causa de uma diferença de dez minutos nos horários. Há quatro semanas, esqueci-me do guarda-chuva. Ele veio entregar-mo à rua e perguntou se era sempre tão despachada ou se o café estava particularmente mau.

Eu disse que estava atrasada. Não estava. Só não sabia como ficar ali sem transformar a simpatia dele numa interpretação que depois tivesse de apagar.

Na manhã seguinte, cheguei dez minutos mais cedo. Escrevo isto porque ninguém além de mim precisa de acreditar que foi por acaso. Óscar estava ao balcão, com uma chávena e um saco de pão. Cumprimentou-me e deixou-me o lugar junto à janela. Fiquei.

Quarta-feira, à tarde.

Hoje perguntou-me se queria jantar na sexta. Disse que gostava de continuar a conversa num sítio onde nenhum tivesse de sair antes de acabar o café. Respondi que sim e passei a hora de almoço a verificar se tinha confirmado uma coisa que me apetecia ou apenas uma coisa que receava perder.

Apetece-me. Preciso de escrever isto sem acrescentar logo todas as reservas que conheço. Gosto da voz dele. Gosto de que se lembre das coisas que eu disse sem usar essa memória para provar que presta mais atenção do que os outros. Gosto também de não saber ainda muito. Durante anos, tratei a incerteza como um defeito que um encontro devia resolver imediatamente.

Pedi-lhe que escolhesse um restaurante onde se pudesse falar. Óscar perguntou se havia algum que eu quisesse experimentar. Escolhi. Ele fez a reserva e enviou-me a confirmação, sem transformar a minha sugestão num trabalho que voltava para mim.

Sexta-feira, antes de sair.

Mudei de roupa duas vezes. Não porque nada me ficasse bem, mas porque tinha preparado uma versão de mim que parecia adequada a um jantar sobre o qual ainda não sabia quase nada. Na primeira versão, era uma mulher absolutamente descontraída. Na segunda, alguém que já tivera demasiadas experiências para levar aquele convite muito a sério.

Estou a sair com a roupa que usaria para jantar com uma pessoa de quem gosto. Parece-me suficiente. O caderno fica em casa. Não preciso de anotar o encontro enquanto acontece, como se depois houvesse uma reunião onde me perguntariam porque o aceitei.

Sábado, de manhã.

Correu bem. A frase é pequena porque ainda estou a tentar não a aumentar até deixar de ser verdadeira.

Óscar chegou antes de mim. Não trouxe flores nem uma história sobre um atraso impossível de verificar. Estava à porta e pareceu contente por me ver. Eu também fiquei contente e consegui dizê-lo antes de começar a falar da chuva.

Conversámos durante duas horas. Ele contou-me que gostava do mercado, mas não queria trabalhar lá todos os dias que ainda tinha pela frente. Estava a formar uma equipa para poder faltar algumas manhãs. Não pretendia abandonar o negócio nem apresentá-lo como uma vocação que dispensava cansaço.

Eu falei da casa onde vivo sozinha. Disse que às vezes fico no trabalho mais tempo do que preciso, porque regressar cedo me obriga a escolher o que quero fazer. É mais fácil dizer que não tive tempo de sair do que reconhecer que não convidei ninguém.

Óscar não ofereceu uma solução. Perguntou-me o que gostaria de fazer numa noite em que não precisasse de justificar nada. Respondi que ia ouvir música ao vivo numa sala pequena. Não quis dizer o nome de uma banda para tornar a resposta mais interessante. Apetecia-me apenas estar ali com tempo para ouvir.

Ele convidou-me para uma noite dessas. Eu podia ter dito que veria quando estivesse menos ocupada. Disse-lhe antes que gostava de ir na semana seguinte. Abrimos as agendas e encontrámos uma quinta-feira.

Depois do jantar, caminhámos até ao meu carro. Óscar perguntou se me podia dar a mão. Aceitei. A mão dele estava fria, porque tinha deixado o casaco aberto durante o passeio. Eu tive vontade de me aproximar e fi-lo, sem transformar a vontade numa pergunta ao diário.

Beijámo-nos junto à porta do carro. Não vou descrevê-lo como se um beijo pudesse anunciar tudo o que duas pessoas farão depois. Gostei. Quero voltar a beijá-lo. Para esta manhã, chega.

Quinta-feira, de noite.

A sala de música era pequena e ficámos de pé perto da parede. Óscar não conhecia os músicos. Eu também não. Durante a primeira canção, perguntei-lhe se estava a gostar e ele respondeu que ainda estava a ouvir. Parece-me uma resposta bastante sensata para muitas coisas.

Depois fomos comer sopa. Óscar estava cansado. Tinha trabalhado desde cedo e não tentava esconder isso com uma animação que não conseguia manter. Disse-lhe que podíamos ir para casa. Ele respondeu que queria ficar mais um pouco, mas precisava de uma noite menos longa do que imaginara.

Ficámos o tempo que nos serviu. No caminho, disse-lhe que tinha medo de começar a ajustar sempre o meu horário ao dele. Óscar agradeceu-me a franqueza e perguntou o que eu precisava de conservar. Uma noite de leitura, algumas manhãs sem pressa e o direito de não transformar todos os intervalos livres numa oportunidade de nos vermos.

Ele precisava de descanso e de tempo com os amigos. Não havia incompatibilidade em todas as coisas que não partilhávamos. Havia apenas uma relação nova que ainda não tinha de ocupar todos os lugares de duas vidas.

Domingo, ao almoço.

Convidei-o para casa. Cozinhei uma coisa simples e deixei os livros onde estavam. Ele trouxe fruta e perguntou se podia pô-la na bancada. A pergunta fez-me sorrir, porque na minha casa as pessoas costumam procurar um sítio para as coisas antes de descobrir se eu quero que fiquem.

Falámos do diário. Não lho mostrei. Disse-lhe que escrevo para não esquecer o que pensei antes de decidir. Óscar perguntou se aparecia lá. Respondi que sim, mas que o caderno me descrevia mais a mim do que a ele. Não o podia usar para construir um homem mais conveniente do que aquele que estava sentado à mesa.

Ele disse que agradecia. Depois perguntou se eu continuava a chegar cedo à pastelaria de propósito. Confessei. Óscar riu-se e contou que, desde a semana do guarda-chuva, também prolongava o café quando me via entrar na rua.

Quarta-feira, de manhã.

Fui à pastelaria à hora habitual. Óscar já tinha ido para o mercado. Não senti que o desencontro apagasse os outros dias. Tomei café junto à janela, li duas páginas de um livro e saí antes de a chávena ficar fria.

À noite, encontrei no telefone um convite para sábado. Respondi que sim e sugeri um lugar diferente. No diário, escrevi o nome dele sem o riscar. A seguir, anotei a hora do encontro e fechei o caderno. Havia coisas que já podiam esperar pela conversa.

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