Uma história Meia Noite
A mesa para três
A mesa tinha três lugares, mas Irene continuava a organizá-la como se fossem dois. Só reparou quando Marta chegou e perguntou onde podia pousar o casaco sem deslocar uma pessoa inteira.

A mesa tinha três lugares, mas Irene continuava a organizá-la como se fossem dois. Só reparou quando Marta chegou e perguntou onde podia pousar o casaco sem deslocar uma pessoa inteira.
Irene tinha trinta e sete anos, Tomé trinta e nove e Marta trinta e cinco. A primeira trabalhava numa farmácia, o segundo instalava sistemas elétricos e a terceira conduzia autocarros. Conheciam-se de encontros entre amigos, quase sempre em salas onde a conversa mudava antes de alguém conseguir terminar uma história.
Irene e Tomé viviam juntos havia oito anos. Tinham falado de abrir a relação durante meses, sem transformar as conversas numa promessa de que tudo seria fácil. Nenhum queria usar outra pessoa para resolver problemas que pertenciam aos dois. Só decidiram experimentar encontros separados quando conseguiram dizer, um ao outro, o que receavam perder.
Marta sabia disso. Gostava de Irene e começara a gostar de Tomé de uma forma diferente, depois de passarem uma tarde a conversar enquanto os amigos jogavam cartas. Tinha sido ela a sugerir que se encontrassem os três para jantar. Não queria chegar como uma surpresa preparada por duas pessoas nem receber uma versão das coisas à qual só pudesse responder sim.
Irene escolhera um restaurante onde as mesas eram redondas. Julgara que isso resolveria a dificuldade. Agora tinha um prato no lugar errado, duas taças de pão diante de si e o casaco na cadeira de Marta.
Tomé levantou-se para arrumar o casaco. Marta sentou-se e agradeceu-lhe. Depois pediu uma garrafa de água e perguntou se podiam começar por falar de comida antes de examinarem a vida de todos.
Concordaram. Irene estava demasiado nervosa para escolher. Tomé sugeriu um prato que podia ser partilhado, mas Marta preferiu pedir o seu. A escolha pareceu-lhe uma forma simples de não transformar todas as coisas daquela noite num ensaio de comunidade.
A conversa começou pelo trabalho. Marta descreveu um passageiro adulto que reclamara durante um trajeto inteiro e depois lhe agradecera a condução. Tomé contou um problema com uma campainha que só funcionava quando ninguém tocava nela. Irene falou de um turno longo em que tinha esquecido o próprio almoço dentro do frigorífico.
As histórias eram banalidades, mas ajudaram-nos a sair das posições em que tinham chegado. Não havia uma pergunta principal escrita no centro da mesa. Havia três pessoas com fome e dias diferentes.
Foi Marta quem falou primeiro do convite.
«Gosto de estar convosco. Mas não sei ainda se gosto da mesma maneira.»
Irene ouviu a frase e sentiu a tentação de a interpretar como uma escolha contra alguém. Tomé permaneceu quieto. Marta acrescentou que não podia prometer sentimentos simétricos só porque a mesa tinha três lugares.
«Não tens de prometer», respondeu Irene. «Eu também não sei o que isto vai ser.»
Dizer aquilo aliviou-a. Durante os dias anteriores, tentara apresentar-se como a pessoa mais tranquila de uma situação que ainda não conhecia. Receava que qualquer dúvida sua fosse entendida como uma autorização retirada. Agora podia ter dúvidas e continuar ali.
Tomé disse que gostava das duas mulheres, mas que não queria falar por Irene. A relação que já tinha não lhe dava o direito de explicar o que ela sentiria perante uma relação nova. Marta agradeceu-lhe a distinção e perguntou como gostavam de comunicar quando alguma coisa corria mal.
Irene costumava fechar-se. Tomé tentava resolver tudo na primeira conversa. Descobriram que nenhum desses hábitos ajudaria se houvesse uma terceira pessoa a receber o silêncio de um e a pressa do outro. Marta preferia pedir tempo e dizer quando voltaria ao assunto.
Não escreveram um contrato no guardanapo. Combinaram coisas pequenas e compreensíveis. Ninguém teria de aceitar um encontro com os três para continuar a ver alguém individualmente. Ninguém faria convites em nome de outra pessoa. Se a situação deixasse de lhes fazer bem, poderiam dizer isso sem usar a mudança como castigo.
Quando a comida chegou, falaram de outro assunto. Irene tinha medo de que a noite acabasse num seminário sobre relações. Marta contou-lhe uma viagem que gostaria de fazer de autocarro, precisamente porque estava cansada de conduzir. Tomé disse que podia ir sentado num lugar onde não lhe pedissem para verificar tomadas.
Riram-se. Irene reparou que a proximidade não precisava de estar em todas as frases. Podia existir enquanto discutiam uma estrada ou dividiam uma sobremesa que Tomé pedira sem saber se alguém a queria.
Depois do jantar, caminharam até ao jardim perto do rio. Irene seguiu ao lado de Marta. Tomé ficou um pouco atrás para atender uma chamada curta, e nenhuma tentou usar o intervalo para decidir o que ele não estava a ouvir.
Marta perguntou a Irene se estava confortável. Ela respondeu que estava melhor do que no princípio, embora continuasse com receio de descobrir que só sabia gostar de uma ideia. Marta reconheceu o receio. Também ela tinha imaginado o encontro antes de saber o que cada um verdadeiramente queria. Podia agora deixar parte dessas expectativas de lado e fazer perguntas às pessoas que caminhavam junto dela, em vez de continuar a inventar-lhes respostas.
«Podemos não ter pressa», disse.
Irene deu-lhe a mão. Marta aceitou o gesto sem o apresentar como uma escolha definitiva. Quando Tomé regressou, juntou-se a elas e perguntou por que caminho queriam continuar. Marta escolheu a rua onde tinha deixado o carro.
Antes de se despedirem, pediu a Irene um abraço. Ficaram próximas durante alguns instantes. Depois Marta aproximou-se de Tomé e beijou-o, tendo perguntado primeiro se ele queria. Irene viu o beijo e reconheceu uma pequena inquietação que não precisava de esconder nem de resolver ali à pressa.
No caminho para casa, disse-lhe que se sentira estranha por um momento. Tomé não lhe explicou que devia sentir-se de outra maneira. Perguntou se queria falar ou caminhar em silêncio. Irene quis falar. Contou-lhe que também gostara de dar a mão a Marta e que as duas coisas podiam ter acontecido na mesma noite.
Na semana seguinte, Irene encontrou Marta para tomar café. Tomé foi jantar com um amigo. Não estavam a distribuir pessoas em turnos iguais. Estavam a cumprir os convites que cada um tinha feito e a verificar como lhes assentavam.
Marta levou um mapa de estradas antigas que encontrara numa feira. Irene trouxe fotografias de uma viagem de há anos. Falaram dos sítios aonde queriam regressar e das versões de si próprias que já não precisavam de levar. No fim da tarde, beijaram-se junto à porta do café. Irene não pensou no beijo da semana anterior como uma medida com que devesse comparar aquele.
Houve mais encontros. Alguns foram fáceis, outros não. Tomé esqueceu-se de uma combinação e pediu desculpa sem culpar a confusão do calendário. Marta precisou de uma semana com menos mensagens. Irene descobriu que podia perguntar uma coisa antes de passar duas noites a responder-lhe sozinha.
Ao fim de um mês, voltaram ao restaurante. O empregado colocou uma mesa redonda à disposição dos três. Irene pousou o casaco no bengaleiro e deixou cada pessoa escolher o lugar onde queria sentar-se.
Marta trouxe uma notícia sobre o trabalho. Tomé pediu água. Irene abriu a ementa e não procurou uma forma de tornar todas as escolhas iguais. Queriam continuar a encontrar-se. Naquela noite, isso era o suficiente para começarem por pedir jantar.


